20091130

de volta ao rio
ao meu rio
e como diz o fado
é só o rio que é verdade
vazio
é possível ficar no vazio
tudo menos recuar
para o quarto escuro debaixo do vão da escada
onde eu já não caibo
no vazio tudo pode ser
até tu
ir e voltar
ir e voltar
a vida pode ser uma viagem de comboio
uma viagem de ida e volta
regressar
podes sempre regressar

20091129

"Are you ready boots?" http://www.youtube.com/watch?v=XjV2K2OjYQc
De volta ao sul. Ao sol. E ao sal.
O meu corpo gosta de estar aqui.
A minha alma acho que nunca chegou a ir embora.

20091125

Autobiografia em Cinco Pequenos Capítulos de Portia Nelson


I

Eu caminho pela rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Eu caio dentro dele.

Eu estou perdido…estou desamparado.

Não é culpa minha.

Leva muito tempo para encontrar a saída.


II

Caminho pela mesma rua,

Há um buraco fundo na calçada.

Finjo que não o vejo.

Caio dentro de novo.

Não posso crer que esteja no mesmo lugar.

Mas não é culpa minha.

Ainda leva muito tempo para sair.


III

Eu caminho pela mesma rua.

Há um buraco no fundo da calçada.

Eu vejo que ele está lá.

Eu ainda caio… é um hábito.

Os meus olhos estão abertos.

Eu sei onde estou.

É culpa minha.

Saio imediatamente.


IV

Eu caminho pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Eu passo ao seu redor.


V

Eu caminho por outra rua.


20091124

Odeio quando tenho razão.
Não. Outra vez não. Assim não. E afinal é tão fácil ir embora. Ir embora é o que eu sei fazer melhor. Especializei-me. Há uma ciência no partir. Uma matemática do adeus. Quanto deixamos atrás e quanto levamos connosco. E uma arte também. É bonito ir embora. Ninguém filma pessoas a chegar. Ninguém escreve poemas sobre começos. O fim é estéticamente perfeito. O fim é belo. A dor tem uma beleza plástica. O poeta sabe disso. E é só por isso que sofre.

20091122

"There's a fairytale
You never learned to read or write
Oyster shell
you never learned to look inside"

20091121

Manhã cinzenta com pijama da mesma cor. Não sair de casa. Não sair do corpo. Ficar por perto. Tenho saudades de mim. Do meu amor mais amado. Deambular por casa numa ronha de outono com pantufas e chá quente na mão. Ficar a ouvir o vento e as vozes dos homens que trabalham lá fora. Nesse outro jardim maior.

20091120

Cheia. Eu. A maré não sei como está.

20091119

Gosto de comboios. Da sensação de filme que passa no cinema que temos ao olhar por uma janela de comboio. Sobretudo disso. Do passar. Aquela sensação de passar sempre. E nunca ficar. Há pessoas que vivem em barcos. Há pessoas que vivem em caravanas. Eu podia viver num comboio. Gosto da conversa deles. Pouca terra pouca terra pouca terra. Do cheiro a ferro que se entranha nas nossas mãos. Das malas pesadas dos outros que às vezes ajudamos a carregar. Dos estranhos com quem falamos por cima do ruído dos carris. Das palavras mal entendidas. Das conversas do banco de trás. Do apito a soar que nos diz que vamos partir. E daquela sensação de pé no estribo.

20091118

Vazia. Eu e a maré.

20091115

Onde andam os teus olhos de água?
"Qualquer homem,
por maior que seja a sua desgraça,
está sentado no infinito" Quatrini

20091111

20091110

a memória de uma praia com bichos
de um mar que não se mexe
de areia com pauzinhos e conchas brancas

farinha de pau com água e açúcar
o cólo impossível da Tia Laurinda
uma memória de quintais com alguidares

da terra sempre verão
uma memória de água
de pés molhados nas sandálias

vem brincar, vá lá
não posso, o meu pai não deixa

20091108

(...) "que a dor é tão velha que pode morrer" (...)
Lembras-te das sombras dos estores na parede do quarto à noite?
E das luzes dos carros que passavam na rua a atravessar o tecto devagar e sempre na mesma direcção?
E lembras-te de teres as pernas contra a parede e bateres com os pés apenas para sentir alguma coisa?

20091101

Ainda sobre as metamorfoses...

“A ciência não faz a menor ideia da razão pela qual a metamorfose evoluiu. É quase impossível imaginar que os insectos tenham ido lá parar por acaso – a complexidade química de se transformar numa borboleta é incrível; milhares de passos estão minuciosamente interligados.

Mas não fazemos a menor ideia de como se encontra ligada esta cadeia de acontecimentos. Duas hormonas regulam o processo que a olho nu parece uma lagarta a dissolver-se transformando-se numa sopa. Estas duas hormonas certificam-se de que as células que se estão a transformar de larva em borboleta sabem para onde vão e como vão alterar-se. A algumas células é dito morram; outras digerem-se a si mesmas, enquanto outras ainda se transformam em olhos, antenas e asas. Isto implica um frágil e miraculoso ritmo que tem de permanecer em equilíbrio entre criação e destruição. Verifica-se que esse ritmo depende do comprimento do dia, que por sua vez depende da rotação da Terra em redor do Sol. Portanto há milhões de anos que um ritmo cósmico está intimamente ligado ao nascimento das borboletas.

A ciência concentra-se nas moléculas mas este é um exemplo notável de inteligência em acção usando moléculas como veículos do seu próprio desígnio. O desígnio neste caso é criar uma nova criatura sem desperdiçar antigos ingredientes.“

Deepak Chopra