20121231
20121226
20121012
20120611
20120606
Interessa-me isto de usarmos as palavras para nos tocarmos. Interessam-me as palavras que nos desmancham. Que nos desfazem de alto a baixo num só golpe. Que entram por nós a dentro. E nos viram do avesso. Mesmo os maiores. Os mais duros. Os mais fortes. Especialmente esses. As palavras capazes de nos atravessar. Directamente apontadas ao coração. Que ficam amarradas num nó dentro da garganta. Que são enfiadas sem piedade como um soco no estômago. São essas as palavras que me interessam.
20120603
Preciso de beleza impossível. Daquelas coisas que não acreditamos existir. Como umas borboletas azuis enormes que vi uma vez numa floresta. Completamente irreais a voar pelo meio das árvores. Como os palácios de Veneza suspensos por milhares de estacas de madeira. Cidade completamente impossível. Preciso desse grito. Do belo que acontece. Do belo a tornar-se matéria. Do belo que luta com todas as armas que tem.
20120530
20120514
20120511
20120404
20120325
Como será fazer uma limpeza de Primavera dentro da nossa cabeça? Abrir os olhos para deixar a luz entrar. Inspirar fundo e sentir o ar fresco nos pulmões. Deitar fora ideias que já não precisamos. Limpar os pensamentos recorrentes que se acumularam em camadas espessas mais por preguiça do que por qualquer outra coisa. Deixar os sons dos pássaros e das crianças entrar dentro de nós. Guardar o olhar escuro e pesado de Inverno nos armários devidamente acondicionado. E comprar flores. Sim. Comprar flores amarelas. Que é como quem diz, sorrir. Depois é só esperar pela explosão lenta de vida que surge em nós todos os anos por esta altura. Não a sentem chegar?
20120323
20120319
(espero)
a estação dos pássaros novos e do vento que desarruma as sementes velhas
(subo escadas muitas escadas)
no meio de colinas que estalam amarelas de tanto brilhar ao sol
(às vezes paro)
porque há um deus que assim quer
senão a luz não brilhava desta maneira
não brilhava desta maneira que me faz parar a meio das escadas
devota do tom de amarelo que cobre as fachadas exactamente às 18.05
(ando)
gosto de te ouvir dizer o meu nome
naquela roda de crianças
(naquela roda de crianças onde brincamos às escondidas e tu ainda não me encontraste)
20120307
20120305
Errata. Preciso de uma errata. Sabem aqueles papéis com versões corrigidas de palavras ou expressões que se anexam aos livros quando não queremos repetir toda uma edição por causa de alguns lapsos? As histórias continuam a fazer sentido. As histórias sobrevivem a lapsos ortográficos e a outros acidentes de escrita. E nós? Será que sobreviveremos sem erratas explicativas? Sem uma nota de rodapé que seja? Ficaremos nós para ler as histórias uns dos outros até ao fim?
20120227
20120226
Quando escrevemos normalmente fazemos um rascunho primeiro. Rascunhos de poemas. De crónicas. Cartas. Posts. Mails. Rascunhos de uma história. E no dia-à-dia será que é possível fazer um rascunho de uma conversa difícil? Ou de um beijo? Ou então o ensaio de um gesto que nos custa fazer seja por falta de jeito ou por falta de hábito? Será que é possível editar um fim de semana? Ou rever a encenação de uma noite? Como escrever uma vida inteira sem rasgar uma folha que seja ou riscar uma palavra que saiu menos bem? O Agostinho da Silva dizia que cada pessoa é o seu maior poema. E que a vida é isso de descobrirmos que poema somos. Eu já encontrei o rascunho do meu.
20120221
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