20101231
É. Hoje é o último dia do ano e eu sinto que devia escrever qualquer coisa. É o momento de fazer reflexões, balanços, listas, votos. Procurar palavras importantes. Medi-las, vesti-las, prepará-las para a ocasião. Nestes dias não se escreve um texto qualquer. Não se dizem coisas sem importância. Não se usa calças de ganga. Nem se fica em casa de pijama. Mas por mais voltas que dê, não consigo encontrar nada de importante para escrever. Que esteja à altura das lantejoulas e dos saltos altos. Algo que se beba num copo de pé alto. Algo que nos faça voltar para casa já de madrugada. Mas há uma palavra que não me sai da cabeça por estes dias. Uma palavra que detesto. É. Também se podem detestar palavras. Aprendi há pouco tempo. São como as pessoas. Podemos gostar de algumas e traze-las connosco a vida toda. Viver com elas debaixo do mesmo tecto. Ou detestá-las. Mudar de rua quando as vimos aparecer. Reveillon. Detesto a palavra reveillon. Não acham que já é tempo de termos uma palavra em português para sermos festivos no fim de ano? Ora aí está uma palavra importante para procurar. Podemos fazê-lo durante o ano que vem. Temos 365 dias para a encontrar.
20101208
Às vezes a vida consegue ser simples. Assim como chegar ao carro, ligar o rádio e ouvir uma música que gostamos e não ouvíamos há muito tempo. Tão simples. Como se fosse um samba de uma nota só. http://www.youtube.com/watch?v=v5Pc8LC-tNk
20101207
20101129
20101112
Existe mesmo. É verdade. Existe uma Sociedade de Apreciadores de Nuvens. Com sede no Reino Unido onde não faltam nuvens para todos os gostos. Eu conheço um associado português. Muito provavelmente o único. Mas não gozem. Não sem antes darem uma espreitadela. Vale bem a pena. Claro que depois disso nunca mais vão querer dias de céu limpo. Cloud Lovers, Unite! http://cloudappreciationsociety.org/
20101111
20100926
"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão" Herberto Helder
20100919
E agora?
(dói ainda mais quando não se tem palavras quando a dor é um espaço sem coisas dentro e sem movimento apenas o espaço a lembrar-nos que não existimos que talvez nunca tenhamos mesmo existido que somos uma imagem vaga no sonho de alguém que dorme a sono solto e que desapareceremos assim que essa pessoa acordar assim que essa pessoa acordar e café e duche e trabalho e todas essas coisas dói ainda mais quando não sabemos quando a dor não tem forma nem cheiro nem cor quando não sabemos se é um bicho ou uma planta ou uma pedra dói ainda mais quando a voz cala e não diz não diz do tamanho do peito que mirrou para o espaço vazio ser mais pequenino não diz da lua ao contrário que ficou nos olhos fundos não diz da morte da morte sempre a espreitar a morte pequenina a morte de todos os dias a morte devagarinho dói ainda mais quando se tem todo o ar dentro de nós e o ar é tanto e podia tantas coisas dói ainda mais quando se sabe que a vida toda é aqui é isto és tu e ele e ele e ela e ela e ele e ela e eu e nós é este jogo de espelhos e nós distorcidos ora redondos ora esticados nós deformados no espelho do outro à procura de mais de nós dói ainda mais quando se sabe que todo o tempo que existe é este aqui debaixo do sol é este aqui debaixo do teu sorriso e tu te reviras dentro de mim num gesto de casaco e saco e ir embora dói ainda mais que eu saiba tudo isso mas não tenha palavras para tudo o que fica para este amor ao contrário para este amor de pernas para o ar para este amor que descomeça)
20100819
Nunca foi fácil a nossa relação. Somos diferentes. Ele é extrovertido e gosta das luzes do palco. Adora multidões. Festas. Jantares. Ruas cheias de gente. Não é que eu não goste de um pouco de animação. Também gosto de convívio. Andar pela noite fora até o dia nascer. Mas também preciso do meu sossego. E de me encontrar comigo de vez em quando. Descobri que preciso mesmo de um pouco de tédio. De me aborrecer. E com ele é difícil. Mas a nossa relação tem melhorado muito nos últimos anos. Acho que nos entendemos melhor. E ainda que eu prefira Setembro gosto muito do meu querido mês de Agosto.
20100809
20100808
20100806
20100804
20100802
20100730
20100727
20100715
20100627
20100617
Ao princípio não era assim. Eu não sentia tanta falta daquela metade impossível de mim. Tinha trocado o impossível do meu mundo pelo possível do teu. Naquele que foi o meu último mergulho. O meu amor por ti. Um amor-de-água. Um amor-apneia. Hoje sei que me falto a mim mesma. E que há mais de mim do que aquilo que vejo. Do que aquilo que vês. Mais do que aquilo que trago todos os dias para casa. Há mais azul. Há mais prata. E à noite quando durmo a teu lado o meu corpo move-se sem querer. As pernas cruzam-se e os pés esticam-se. E as mãos nas coxas sentem de novo o frio metálico das escamas. Por uns instantes volto ao mar. Regresso a casa e ao ser de água que ainda existe em mim.
20100608
20100523
20100513
20100501
parar (latim paro, -are, preparar)
1. Cessar no movimento ou na acção
2. Não passar além de
3. Estacar
4. Chegar a um termo ou fim
5. Residir
6. Permanecer, conservar-se
7. Frequentar
8. Descansar
9. Recair ou vir ao domínio ou propriedade de alguém
10. Reduzir-se ou converter-se
11. Impedir a continuação do movimento, curso ou progresso de
12. Aparar
13. Sustentar
14. Fixar, conservar
15. Prevenir
16. Apontar
20100428
20100425
20100419
20100418
20100412
20100411
20100410
20100331
Conhecem aquela sensação de estar a ler pela primeira vez um texto e sentir que intimamente já conheciam aquelas palavras? Como se voltassemos a uma casa da qual não nos lembramos de alguma vez ter saído. O livro Proust era um Neurocientista une dois mundos que na verdade nunca estiveram separados, a arte e a ciência. É um bom livro para aqueles que por vezes se sentem a vaguear num mundo sem forma, permanentemente pressionados para fazer uma escolha entre sistemas de pensamento. Não é preciso. Uns e outros fazem parte do mesmo, fazem parte do todo. Como aliás, lembra o autor do livro, nos prometeu Whitman quando escreveu "a vossa própria carne será um grande poema."
20100328
preto, branco, cheio, vazio, aberto, fechado, rápido, lento, escuro, luminoso, forte, fraco, grande, pequeno, alto, baixo, novo, velho, feio, bonito, disperso, focado, longe, perto, quente, frio, duro, suave, concâvo, convexo, dentro, fora, som, silêncio, preso, livre, eu, tu
tudo o que não sou, me constroi
operário escondido, de uma casa maior
20100323
Há encontros que começam com um sim e outros que começam com um não. Há encontros instantâneos e outros que levam uma vida inteira para acontecer. Não se planeia um encontro. É uma coisa que acontece. Mas podemos acreditar que é possível. Podemos dar um passo e acreditar que o chão vai estar lá para o encontro acontecer. Esse chão que se inventa ali no momento. Que inventamos. Juntos. Música improvisada para uma coreografia a não ensaiar nunca. Rearranjo de órgãos, tecidos e células apenas por um instante. No dia à dia da carne e osso e afectos. Na voz que projectamos sem esperar que ela regresse. No gesto que entregamos e que deixa de ser nosso. Magia improvável de um almanaque que nunca foi escrito. Nas coisas pequenas. Sobretudo nas coisas mais pequenas. E nas que têm defeitos. E erros de ortografia. E movimentos sem jeito. Naquelas em que tropeçamos. É sobretudo nessas. Que o encontro acontece.
20100314
20100310
20100309
20100304
Os tolos, os idiotas e os loucos de uma maneira geral sempre me fascinaram. Os temporariamente loucos, os apaixonadamente loucos, os distraidamente loucos. O primeiro de todos foi sem dúvida São Francisco de Assis. Que aliás só recentemente descobri que tinha sido louco. Em criança parecia-me perfeitamente natural que alguém falasse com os animais. Nem sei mesmo se não terá sido por ele que decidi estudar biologia. Sempre pensei que tinha sido por causa da minha professora do nono ano mas pensando melhor talvez tenha sido por causa dele. Num mundo essencialmente louco ser louco é a resposta mais natural. E por isso perder o juízo pode ser o melhor a fazer. Mesmo. Só outro dia percebi isso. Num vislumbre da minha própria loucura. E é uma linha tão ténue. E a tentação é muito grande. Não sabemos é se depois de a cruzar alguma vez saberemos regressar. Ou se quereremos sequer. Enquanto isso não acontece e o mundo prossegue louco à nossa volta podemos sempre brincar com a loucura possível. A loucura aceitável. A loucura sustentável. Em pequenas doses. Sózinho ou acompanhado. Experimente. Perca a cabeça por uns instantes. Vai ver que logo logo ela volta ao lugar.
20100228
"Como hoje tudo está tão estranho! E ontem tudo se passou como de costume! Gostava de saber se fui eu que mudei durante a noite? Deixa-me cá pensar: Quando me levantei esta manhã seria a mesma pessoa? Parece que me lembro de me sentir um bocadinho diferente. Mas se não sou a mesma pessoa, a questão então é saber: Quem sou eu? Ah! Esse é que é o grande mistério!"
Lewis Carroll Alice no País das Maravilhas
So the question is... how far down the rabbit hole do you really want to go?
20100221
"Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar malamar, amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho,
em rotação universal, senão rodar também, e amar?
amar o que o mar trás à praia, e o que ele sepulta,
e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero, uma vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita." Carlos Drummond de Andrade
20100219
20100217
20100215
20100213
20100207
Gosto desta coisa de atravessar o rio. De sentir este movimento de ir e voltar. A partida e o regresso. Gosto de ter uma vida com duas margens. E um rio e uma ponte que o atravessa. E poder ser margem sul umas vezes e margem norte outras. E o rio que corre por entre as margens em direcção ao mar. E a própria ponte, engenharia de homem, que liga os dois lados. E este momento em que atravesso o rio sobre a ponte, este momento em que não estou em nenhuma das margens, suspensa sobre o rio, e sou a ponte, é como se deixasse de existir por uns instantes. Sou apenas a coisa que liga. E nas noites em que a lua brilha alta e volta ao rio com a sua luz branca repete-se um amor líquido e prateado. Um amor que vai e volta. Um amor lunar. Que parte e que regressa. Sempre. Assim como eu.
20100203
20100202
falta palavra quase palavra sem palavra não palavra
falta inventar uma linguagem para todos os silêncios silêncios pequenos silêncios grandes daqueles incómodos e dos que não custam nada silêncios forçados e silêncios livres dos que têm cor e dos outros transparentes dos que têm cheiro e dos que deixam rasto atrás de si se pensarmos bem existem muitos silêncios diferentes e não há palavras para todos eles não há
20100126
20100114
20100112
20100110
Experimentar ficar no sítio onde estão os meus pés. Falar com eles a cada passo que dão. Experimentar ser os meus pés. E aquela mão. Ser aquela mão que segura a porta para a senhora entrar no café. Ser a nuca fria quando tiro o gorro de lã e o frio de Inverno chega sem pedir licença. Ser os cabelos soltos e deixar-me cair de uma outra maneira. Ser os olhos húmidos e a lágrima que espreita. Ser o próprio sal que seco depois da lágrima estica a pele do rosto. Experimentar ser quanto sou no limite estritamente orgânico da minha pele. Ficar por aqui. Não ir embora. Ficar nesta vizinhança de carne e osso e afectos. Entregar-me. Ser as costas cansadas de tanto lutar consigo mesmas. Ser o cólo quente do gato que passa e que fica.
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