20100331
Conhecem aquela sensação de estar a ler pela primeira vez um texto e sentir que intimamente já conheciam aquelas palavras? Como se voltassemos a uma casa da qual não nos lembramos de alguma vez ter saído. O livro Proust era um Neurocientista une dois mundos que na verdade nunca estiveram separados, a arte e a ciência. É um bom livro para aqueles que por vezes se sentem a vaguear num mundo sem forma, permanentemente pressionados para fazer uma escolha entre sistemas de pensamento. Não é preciso. Uns e outros fazem parte do mesmo, fazem parte do todo. Como aliás, lembra o autor do livro, nos prometeu Whitman quando escreveu "a vossa própria carne será um grande poema."
20100328
preto, branco, cheio, vazio, aberto, fechado, rápido, lento, escuro, luminoso, forte, fraco, grande, pequeno, alto, baixo, novo, velho, feio, bonito, disperso, focado, longe, perto, quente, frio, duro, suave, concâvo, convexo, dentro, fora, som, silêncio, preso, livre, eu, tu
tudo o que não sou, me constroi
operário escondido, de uma casa maior
20100323
Há encontros que começam com um sim e outros que começam com um não. Há encontros instantâneos e outros que levam uma vida inteira para acontecer. Não se planeia um encontro. É uma coisa que acontece. Mas podemos acreditar que é possível. Podemos dar um passo e acreditar que o chão vai estar lá para o encontro acontecer. Esse chão que se inventa ali no momento. Que inventamos. Juntos. Música improvisada para uma coreografia a não ensaiar nunca. Rearranjo de órgãos, tecidos e células apenas por um instante. No dia à dia da carne e osso e afectos. Na voz que projectamos sem esperar que ela regresse. No gesto que entregamos e que deixa de ser nosso. Magia improvável de um almanaque que nunca foi escrito. Nas coisas pequenas. Sobretudo nas coisas mais pequenas. E nas que têm defeitos. E erros de ortografia. E movimentos sem jeito. Naquelas em que tropeçamos. É sobretudo nessas. Que o encontro acontece.
20100314
20100310
20100309
20100304
Os tolos, os idiotas e os loucos de uma maneira geral sempre me fascinaram. Os temporariamente loucos, os apaixonadamente loucos, os distraidamente loucos. O primeiro de todos foi sem dúvida São Francisco de Assis. Que aliás só recentemente descobri que tinha sido louco. Em criança parecia-me perfeitamente natural que alguém falasse com os animais. Nem sei mesmo se não terá sido por ele que decidi estudar biologia. Sempre pensei que tinha sido por causa da minha professora do nono ano mas pensando melhor talvez tenha sido por causa dele. Num mundo essencialmente louco ser louco é a resposta mais natural. E por isso perder o juízo pode ser o melhor a fazer. Mesmo. Só outro dia percebi isso. Num vislumbre da minha própria loucura. E é uma linha tão ténue. E a tentação é muito grande. Não sabemos é se depois de a cruzar alguma vez saberemos regressar. Ou se quereremos sequer. Enquanto isso não acontece e o mundo prossegue louco à nossa volta podemos sempre brincar com a loucura possível. A loucura aceitável. A loucura sustentável. Em pequenas doses. Sózinho ou acompanhado. Experimente. Perca a cabeça por uns instantes. Vai ver que logo logo ela volta ao lugar.
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