20091231

Arco-íris.
No rio. E em mim.

20091228

Pergunto ao rio o que fazer.
E ele responde-me sempre o mesmo.
Não pares.
Não pares.

20091222

Está quase aí a chegar o dia do Menino Deus... um corpo azul dourado (...)
um porto alegre é bem mais que um seguro na rota das nossas viagens no escuro (...)
ligando os breus dando sentido aos mundos (...)

20091217

Lembras-te daquela frase do American Beauty? Aquela em que ele diz que às vezes há tanta beleza no mundo que ele mal consegue aguentar e sente o coração quase a rebentar...

20091215

adeus
não sei se um adeus português
como o do poeta a tropeçar de ternura no fim
é mais uma coisa de barco que parte
e eu amarrada ao cais

20091206

deve doer
aquele momento em que a semente estala
e daí talvez não

20091130

de volta ao rio
ao meu rio
e como diz o fado
é só o rio que é verdade
vazio
é possível ficar no vazio
tudo menos recuar
para o quarto escuro debaixo do vão da escada
onde eu já não caibo
no vazio tudo pode ser
até tu
ir e voltar
ir e voltar
a vida pode ser uma viagem de comboio
uma viagem de ida e volta
regressar
podes sempre regressar

20091129

"Are you ready boots?" http://www.youtube.com/watch?v=XjV2K2OjYQc
De volta ao sul. Ao sol. E ao sal.
O meu corpo gosta de estar aqui.
A minha alma acho que nunca chegou a ir embora.

20091125

Autobiografia em Cinco Pequenos Capítulos de Portia Nelson


I

Eu caminho pela rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Eu caio dentro dele.

Eu estou perdido…estou desamparado.

Não é culpa minha.

Leva muito tempo para encontrar a saída.


II

Caminho pela mesma rua,

Há um buraco fundo na calçada.

Finjo que não o vejo.

Caio dentro de novo.

Não posso crer que esteja no mesmo lugar.

Mas não é culpa minha.

Ainda leva muito tempo para sair.


III

Eu caminho pela mesma rua.

Há um buraco no fundo da calçada.

Eu vejo que ele está lá.

Eu ainda caio… é um hábito.

Os meus olhos estão abertos.

Eu sei onde estou.

É culpa minha.

Saio imediatamente.


IV

Eu caminho pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Eu passo ao seu redor.


V

Eu caminho por outra rua.


20091124

Odeio quando tenho razão.
Não. Outra vez não. Assim não. E afinal é tão fácil ir embora. Ir embora é o que eu sei fazer melhor. Especializei-me. Há uma ciência no partir. Uma matemática do adeus. Quanto deixamos atrás e quanto levamos connosco. E uma arte também. É bonito ir embora. Ninguém filma pessoas a chegar. Ninguém escreve poemas sobre começos. O fim é estéticamente perfeito. O fim é belo. A dor tem uma beleza plástica. O poeta sabe disso. E é só por isso que sofre.

20091122

"There's a fairytale
You never learned to read or write
Oyster shell
you never learned to look inside"

20091121

Manhã cinzenta com pijama da mesma cor. Não sair de casa. Não sair do corpo. Ficar por perto. Tenho saudades de mim. Do meu amor mais amado. Deambular por casa numa ronha de outono com pantufas e chá quente na mão. Ficar a ouvir o vento e as vozes dos homens que trabalham lá fora. Nesse outro jardim maior.

20091120

Cheia. Eu. A maré não sei como está.

20091119

Gosto de comboios. Da sensação de filme que passa no cinema que temos ao olhar por uma janela de comboio. Sobretudo disso. Do passar. Aquela sensação de passar sempre. E nunca ficar. Há pessoas que vivem em barcos. Há pessoas que vivem em caravanas. Eu podia viver num comboio. Gosto da conversa deles. Pouca terra pouca terra pouca terra. Do cheiro a ferro que se entranha nas nossas mãos. Das malas pesadas dos outros que às vezes ajudamos a carregar. Dos estranhos com quem falamos por cima do ruído dos carris. Das palavras mal entendidas. Das conversas do banco de trás. Do apito a soar que nos diz que vamos partir. E daquela sensação de pé no estribo.

20091118

Vazia. Eu e a maré.

20091115

Onde andam os teus olhos de água?
"Qualquer homem,
por maior que seja a sua desgraça,
está sentado no infinito" Quatrini

20091111

20091110

a memória de uma praia com bichos
de um mar que não se mexe
de areia com pauzinhos e conchas brancas

farinha de pau com água e açúcar
o cólo impossível da Tia Laurinda
uma memória de quintais com alguidares

da terra sempre verão
uma memória de água
de pés molhados nas sandálias

vem brincar, vá lá
não posso, o meu pai não deixa

20091108

(...) "que a dor é tão velha que pode morrer" (...)
Lembras-te das sombras dos estores na parede do quarto à noite?
E das luzes dos carros que passavam na rua a atravessar o tecto devagar e sempre na mesma direcção?
E lembras-te de teres as pernas contra a parede e bateres com os pés apenas para sentir alguma coisa?

20091101

Ainda sobre as metamorfoses...

“A ciência não faz a menor ideia da razão pela qual a metamorfose evoluiu. É quase impossível imaginar que os insectos tenham ido lá parar por acaso – a complexidade química de se transformar numa borboleta é incrível; milhares de passos estão minuciosamente interligados.

Mas não fazemos a menor ideia de como se encontra ligada esta cadeia de acontecimentos. Duas hormonas regulam o processo que a olho nu parece uma lagarta a dissolver-se transformando-se numa sopa. Estas duas hormonas certificam-se de que as células que se estão a transformar de larva em borboleta sabem para onde vão e como vão alterar-se. A algumas células é dito morram; outras digerem-se a si mesmas, enquanto outras ainda se transformam em olhos, antenas e asas. Isto implica um frágil e miraculoso ritmo que tem de permanecer em equilíbrio entre criação e destruição. Verifica-se que esse ritmo depende do comprimento do dia, que por sua vez depende da rotação da Terra em redor do Sol. Portanto há milhões de anos que um ritmo cósmico está intimamente ligado ao nascimento das borboletas.

A ciência concentra-se nas moléculas mas este é um exemplo notável de inteligência em acção usando moléculas como veículos do seu próprio desígnio. O desígnio neste caso é criar uma nova criatura sem desperdiçar antigos ingredientes.“

Deepak Chopra

20091021

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante"
Nuvens nacaradas
Asfalto e nuvens nacaradas
As gotas da chuva não ficam tempo suficiente no pára-brisas

20091016

Tenho uma aguarela da Ana. Uma aguarela sem o Vicente e aquele tipo de amor que o focinho dos cães oferece, húmido e alegre. Uma aguarela sem bichos. Assim como a minha vida agora.
"Somente as pistas fazem sonhar..."

20091005

E volto sempre a este texto pois está lá tudo...

"Está na ordem do universo que um espírito único, por todo o lado espalhado, um sentido em tudo presente, de todas as partes vindo para se apossar das coisas, sinta estes efeitos e paixões que em todas as coisas nos é dado observar (...) A alma, substância divina, não deve por certo pertencer a uma condição inferior do que os fenómenos que dela procedem, e que são como que os seus efeitos, seus vestígios e suas sombras. Em suma: se a voz opera fora do corpo em que nasce, e se encontra inteira em incontáveis orelhas à sua volta, porque não poderia a substância que produz a voz encontrar-se também ela em diversos lugares? Assim age o corpo sobre um corpo distante ou sobre um corpo próximo e sobre as suas próprias parcelas; através de uma espécie de simpatia, de aliança, de união... Quem conhecer esta continuidade indissolúvel da alma... que a alma está indissoluvelmente ligada à matéria universal... Segue-se em conclusão que o vazio não é um espaço sem corpos, mas um espaço no qual diversos corpos se sucedem e movem; daqui procede o movimento contínuo das partes de um corpo em direcção às partes de outro corpo, através de um espaço contínuo, não interrompido, como se o vazio mais não fosse senão o mediador entre cheio e cheio.
"

retirado do Tratado da Magia de Giordano Bruno

20091004

"I said to my soul, be still and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing: wait without love
For love would be love of the wrong thing; there is yet faith
But the faith and the love and the hope are all in the waiting"
T.S. Eliot

20091001

Não, não fui atrás da menina e da avestruz.
Estranhamente não fui a lado nenhum.
Estranhamente tenho ficado aqui.

20090912

E aquela menina vestida de bailarina que vai a passar montada em cima de uma avestruz...
para onde irá ela? Não sei... mas apetece-me ir com ela.

20090907

sou uma vontade de escrever
(mas só isso)
rascunho guardado automaticamente às 23:21

20090906

Os budistas dizem que sem irritação interna não há pérola.

20090809

há um momento em que o meu movimento já não é só o meu movimento
em que o meu corpo já não é só o meu corpo
presa, surpresa

sou o espaço
sou o movimento
sou os corpos

onde começa e acaba o meu movimento?
onde começa e acaba o meu corpo?
quanto do outro já sou eu?

o meu corpo não quer saber da matéria

andorinhas doidas
sim dançamos como andorinhas doidas em tardes de verão

o corpo que falha
o corpo que se desmancha
o corpo que pára

sou uma emoção sem perna direita

ficar fora
ficar dentro
ficar no chão

o limite, o fim, a morte
o meu corpo não pára de me falar nestas coisas

como ser a dança que sinto?
lágrimas nos olhos, dançam-me lágrimas nos olhos

vão sempre existir sítios onde eu acabo
e ainda assim ir até ti
atravessando o imenso deserto das coisas que não são

o meu corpo não pára de me falar nestas coisas
diz-me que não quer saber da matéria
presa, surpresa

20090807

Fazer crescer fome de festa nas coisas, lembras-te?

20090805

O momento antes de
Atravessar um espaço
Corpo nú, é mais do que um, são vários corpos
O meu corpo de água na água
O corpo de água do outro
Sede

Ocupar espaço
Este espaço é meu
O corpo como um todo
O meu centro
Às vezes não sei onde está o meu centro
Não quero cair
Caio
O poder do meu centro
Estou em pé

Memória de um rosto que nunca vi
Uma espécie de memória do futuro
De alguém que só conheço agora
Uma lembrança que trago comigo

Será que já nos conhecemos todos?
O meu corpo responde que sim.
It´s a new day it's a new dawn it's a new life and I'm feeling good
http://www.youtube.com/watch?v=h8tuTSi6Sck

20090726

pino nome masculino
1. ponto mais alto a que o Sol chega; zénite
2. ponto culminante; auge
3. prego de pinho usado pelos sapateiros
4. (bowling) pequena haste de madeira, em forma de garrafa, colocada transversalmente em relação à pista e que, juntamente com outras iguais, deverá ser derrubada por uma bola atirada pelo jogador
5. (ginástica) posição vertical do corpo, com a cabeça para baixo; inversão facial
6. cada um dos pequenos paus a que se atira, no jogo da malha; meco;

a pino a prumo
fazer o pino manter-se na posição vertical com a cabeça para baixo e os pés para cima
no pino do dia ao meio-dia;
no pino do Inverno no maior rigor do Inverno

(Do cast. pino, «levantado; a prumo; de pé»)

20090712

"Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más…

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina y nada más…"
Gabriela Mistral
As palavras fazem muros.
Muitas palavras fazem muros mais altos.
Quando foi que que deixámos de ser capazes de dizer coisas uns aos outros?

20090708

Dar pontapés nas pedras
Dar pontapés nas pedras e fungar
Antes de mais uma corrida
Hoje apetece-me dizer aquele verso d' A Naifa...
"Os ventos todos na palma da minha mão
Quantos ciclones queres?"
E lembras-te das Asas do Desejo? Aquele filme dos anjos...

Quando a criança era criança
andava com os braços a baloiçar.
Queria que o ribeiro fosse um rio,
que o rio fosse uma corrente,
e que esta poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança.
tudo era cheio de vida
e toda a vida era uma.

Quando a criança era criança,
não tinha opinião de nada.
Não tinha hábitos, ficava muitas vezes
sentada de pernas cruzadas,
fugia, tinha um remoinho no cabelo
e não fazia uma cara sorridente
quando tirava fotografias.
cicatriz (Do lat. cicatríce-, «id») nome feminino
1. marca deixada por um golpe ou uma ferida
2. BOTÂNICA sinal que a folha caída deixa no caule
3. figurado lembrança de uma dor moral, desgraça ou ofensa
4. figurado ressentimento

20090705

Agora sei. Tu és Narciso e eu Goldmundo.

20090626

Estou farta de mestres... "Não tenho filosofia tenho sentidos."
http://pt.wikisource.org/wiki/O_Guardador_de_Rebanhos

20090625

Tudo são intervalos e eu o Intervalo Maior revisited

Outro dia ouvi alguém dizer que quando não sabemos em que parte do caminho estamos isso quer dizer que estamos um pouco mais atrás.
Expect to be lost sometimes.

Keep making mistakes.

20090619

vão sempre existir sítios escuros
vai sempre haver água
dentro de mim
e sal também
sempre
(aceitar o frio da água do mar que toca no meu corpo quente)
(aceitar o limite, a fronteira)
vão sempre existir sítios onde eu acabo
e ainda assim ir até ti
atravessando o imenso deserto
das coisas que não são

20090615

agora sou, agora existo
(assim de repente)
esta chuva de verão
fala-me de ti
conta-me coisas tuas
(assim de repente)

20090525

Estou com aquela sensação de canção do Jorge Palma...
"Domingo sabe de cor o que vai dizer Segunda-Feira"

20090524

há jacarandás que moram na cidade
e que espalham lilás no chão
apesar das ruas cinzentas
aprender com eles esta possibilidade
a possibilidade de ser cor
a possibilidade de florir

20090509

Este fim-de-semana uma amiga minha vai escrever uma carta ao Primeiro Ministro. Não é nada de muito especial não fora o facto de ela ter 11 anos e achar que é responsável por dizer ao chefe máximo do Governo aquilo que para ela é importante mudar no nosso país. Fico curiosa por saber que tipo de resposta receberá ela às questões que vai colocar. E ansiosa que a geração dela chegue um dia ao poder neste pais que é governado pelas mesmas pessoas há 30 anos. Pergunta-me se alguma vez eu escrevi uma carta a um Chefe de Governo e eu digo que não. Comenta que também só há uns dias é que tinha descoberto que podia escrever uma carta ao Primeiro Ministro. E com um sorriso escancarado e muita alegria nos olhos termina: "Já pensei em tudo o que vou dizer e acho que consigo escrever como se fosse um adulto".
Ontem consegui parar. Parei à beira da estrada e fiquei a olhar para as andorinhas que voavam sobre um campo cultivado. Nas ilhas as minhas aves de primavera eram as cagarras, umas aves marinhas que fazem lembrar pequenos albatrozes. São aves resistentes que usam um vôo planado sobre as ondas do mar para percorrer grandes distâncias sem parar. São aves que nos falam de força e de confiança. Estas andorinhas disseram-me outras coisas. Falaram-me de alegria, de movimento e de celebração. Falaram-me de uma festa. Uma grande festa.

Será que assim à nossa maneira, e ainda que sem jeito de andorinha, podemos celebrar também?

20090415

Estou perdida de volta. Voltei hoje das ilhas. Ultimamente acontece-me esta coisa de não conseguir regressar inteira das viagens que faço. É como se houvesse uma parte de mim que apanha o comboio e se mete no avião com os outros passageiros e chega às estações e aeroportos de destino com as malas nas mãos. E uma outra ficasse para trás. Levando mais tempo a chegar. Num regresso lento. Muito lento.

"Perdido de volta" é um livro que me veio parar às mãos por estes dias e que não me larga. É uma espécie de doença que espero que me passe até ao fim de semana. Quando eu acabar de o ler. Ou não. Há livros que lemos que vêm morar para dentro de nós. E ser pele e ser osso e ser carne e o ar que enche o corpo nas partes ocas. É verdade, entram e ficam a fazer parte dos tecidos e da estrutura óssea e envelhecem connosco. Como serão dentro de mim quando eu envelhecer? Perderão flexibilidade? Perderão força? Ganharão a ternura e o brilho próprio dos olhos dos velhos?

20090325

Se fechar os olhos quase que consigo ouvir a voz dele. A voz do meu avô João. Um misto de sotaques transmontano, brasileiro e angolano, que a falta de dentes não ajudava a compor. Quem traz na voz um bocado das terras por onde passou faz pensar nas partes de si que terão ficado para trás. Ir embora. Sempre nos fomos embora. Ainda hoje. Sempre nos vamos embora.
Dizer sim ao que acontece.
Ficar aqui.
Não ir a lado nenhum.
Lembras-te de ir deitada na parte de trás do carro a ver passar as sombras das árvores, dos candeeiros e dos prédios da cidade? E de tentares adivinhar onde estavas apenas a partir das sombras? E a lua? Lembras-te de pensares que a lua vinha sempre atrás de ti?

20090322

Depois de uma pausa tão prolongada é caso para perguntar... quem somos quando paramos? http://pt.mondediplo.com/spip.php?article466

20090301

We will get back to you rigth after the commercial break.

20090220

Ontem ocorreu-me que o mundo hoje em dia se divide essencialmente em dois grupos de pessoas: as pessoas que estão desesperadas por não terem um emprego e as pessoas que estão desesperadas com o emprego que têm.
Não posso adiar. Diz o poeta. Fala do amor. Do abraço. Do coração. Leio este poema todos os dias. Está no computador em casa. Está no computador no trabalho. Adiar é das coisas que sei fazer melhor. Creio mesmo que me tornei uma especialista em adiamentos a prazo. Comecei por adiar as lágrimas e depois o riso. Com o tempo adiei tudo o resto. Viagens, encontros, histórias. Gestos, palavras, beijos. Adiei o corpo, naquilo de alma que o corpo tem. Não posso adiar o amor para outro século. Leio o poema. Sou o poema. Não posso adiar o coração. Não posso.
Um dia perguntaram ao Agostinho da Silva o que ele pensava da morte e ele respondeu que não pensava nada porque nunca tinha morrido. Já um amigo meu quando lhe perguntaram o que queria ver escrito no seu epitáfio disse que um dia que morresse gostaria que o colocassem num alimentador para abutres no Tejo Internacional. Filósofos e amigos à parte, a minha madrinha enviou-me ainda hoje um epitáfio bastante original. http://www.youtube.com/watch?v=uTGpGDIThKs&feature=related

20090214

Ardem-me os olhos. Vou fechá-los. Não me parece que veja assim tanto mais com os olhos abertos. Passa-se o mesmo com as palavras. Faltam palavras para chamar nomes às coisas que sinto. Quando é assim fico em silêncio. Um silêncio cheio. Que faz de ponte. Que une aquelas partes desligadas que normalmente enfio nas palavras. É uma engenharia misteriosa como são todas aquelas formas de engenharia que não tratam da matéria mas antes daquilo que a liga.

20090208

fast-for·ward n. or fast forward
1. A function on an electronic recording device, such as a videocassette or tape player, that permits rapid advancement of the tape;
2. The mechanism, such as a button, used to activate this function;
3. Informal A rapidly changing situation or series of events.

20090204

Lamentamos informar que este ano, por motivos de desordem de vária ordem, não haverá Dia de Amigas para ninguém. Consciente do choque que esta notícia certamente causará, a organização preparou apoio psicológico para as mais aptas. O CAPPGT funcionará no dia 5 de Fevereiro, a partir das 20:00, no Peter, e estará aberto a todas as Amigas interessadas. No âmbito do tratamento, serão aplicadas técnicas de relaxamento e auto-conhecimento, com recurso a vários agentes reactivos.

Custo do tratamento 15€

Obs.: Garantia de eficácia total

20090126

Princesa esquece que ele apanhou a bola azul que deixaste cair no lago...
http://www.youtube.com/watch?v=2cGQoPmefyA

20090105

Já não se lembrava ao certo porque tinha partido. E tão pouco porque tinha regressado agora. Tinha-se metido à estrada mais pela viagem. Ou então porque não sabia fazer mais nada. Acreditava que tinha nascido num comboio em andamento mas nunca tinha conseguido confirmar com a mãe. Ela morrera antes de a ele lhe ocorrer fazer tal pergunta. A cidade estava mergulhada numa bruma de filme americano. Ele era o forasteiro que chegava à rua principal. Não havia xerife nem duelo. Apenas turistas perdidos armados com máquinas digitais. Uma loira voluptuosa senta-se ao lado da estátua do poeta no café e pousa para a fotografia. Janelas do quarto dele. De um dos milhões do mundo. Procurava um sítio onde passar a noite. Um sítio barato onde pudesse pousar os sacos e os olhos. Trazia demasiadas coisas dentro de si. Acontecia-lhe sempre que viajava grandes distâncias. Foi andando a pé para a zona mal frequentada da cidade. Onde as esquinas se dobram em ruas escuras e nunca mais se voltam a endireitar. Percebeu um vulto de mulher a fumar recortado em contra luz e viu que se tratava de uma residencial. Não lhe pareceu que fosse necessário falar. Tinha aprendido que as palavras nem sempre o ajudavam a dizer o que queria. Pousou os sacos e fixou o vulto. Este moveu-se em direcção à entrada para lhe dar a chave de um dos quartos mas hesitou no último momento e olhou de novo para a rua. Tu sabes… me gustan las luces amarillas de Lisboa.