20111231

"Se não agora... então quando?" Talmude

20111020

O amor, sim, é inevitável. Assim como a crise, a troika e os mercados. Sobretudo agora. Não há como evitá-lo. Levem esta ideia para a rua. Vão trabalhar com estas palavras. É completamente grátis. Eu sei. Dizem vocês: "Mas é piroso. Isso já não se usa!". É como os lenços de namorados com erros de ortografia. Está bem. Mas é um produto 100% nacional. E sempre o soubémos exportar. Chegámos mesmo a correr mundo para o levar a todo o lado. Não há volta a dar. O amor é inevitável.

20110912

Sempre gostei de musicais. Mesmo os mais pirosos. Lembram-se daqueles em que as bailarinhas dançavam na água a formar figuras geométricas sem fim? Gosto daquela ideia de a qualquer momento da nossa vida no meio de um impasse podermos começar a cantar e a dançar até surgir uma solução. E nestes dias de futuro incerto não é difícil dar por mim no Metro com o iPod nos ouvidos a imaginar o segurança a tocar o solo de trompete que estou a ouvir e os passageiros a levantarem-se todos para dançar uma coreografia nunca antes ensaiada. Não foi a Pina Bausch que disse "Dance, dance, otherwise we are lost."

20110911

Gosto do meu bairro. De querer entrar com o carro no largo e não poder porque a marcha vem a descer a rua para ensaiar. Gosto das velhas à janela. Que falam comigo e eu com elas. Vizinha então. De uma manhã encontrar a praça coberta de pessoas sobre tapetes a rezar numa orientação estranha. E perceber imediatamente em que direcção se encontra Meca. E ver que o sagrado vem para a rua. Sem vergonha. E os miudos. O barulho dos miudos a brincar na rua. Ó mãe! E voltar a casa numa tarde de calor e encontrar a meio das escadas uma piscina insuflavel de plástico cheia de água. Um improviso de praia no meio da cidade. Gosto de não perceber a maior parte das línguas que oiço na rua quando não são português. O meu bairro faz-me imaginar. Faz-me crescer os olhos. Estica-me o coração. Diz-me que são possíveis muitas coisas. Fanfarras indianas. Cantares russos. Sombras chinesas. E umas escadinhas com vasos cheios de flores e hortelã. O meu bairro lembra-me uma coisa que eu tinha esquecido. Que as cidades são feitas de pessoas.

20110830

Certos tipos de luz. Determinadas músicas. Algumas palavras lidas em silêncio. É. A beleza pode mesmo salvar-nos. Precisamos dela nas ruas das nossas cidades. Dentro das nossas casas. Perto das nossas almas.

20110818

20110731

"We've agreed to get together/Joined as children in Jah/when you're moving in the positive/Your destination is the brightest star" http://www.youtube.com/watch?v=SoklqOQ1x_Q

20110729

Afinal a dor leva-nos a todos ao mesmo lugar. Uma espécie de praça central onde vão dar todas as ruas de uma cidade tão antiga como os homens.

20110719

prótese | s.f.
dispositivo ou aparelho que tem por fim substituir um órgão de que se faz ablação ou amputação parcial ou total ou melhorar uma função

20110622

Quando a enfermeira me disse assim meio a sorrir "Isso é o que eu chamo uma asa... Você é jovem e recupera isso bem!" lembrei-me imediatamente da canção dos Beatles. Percebi que estava à espera deste momento. Para voar. De uma outra maneira. Como só é possível quando se tem uma asa partida. http://www.youtube.com/watch playnext=1&index=0&feature=PlayList&v=P5CUHHGlQg0&list=PL2552F8D7D2169BDA

20110518

Afinal aquilo que aprendi nas ilhas é verdade.
Sempre nos cabe uma vida inteira em caixotes de cartão.

20110417

Não pratico nenhuma fé. Ainda assim há histórias de fé que me tocam desde muito pequena. A Páscoa é uma delas. Vibra em mim. Desde sempre. Como um acorde pode soar na corda de um instrumento de música. Eu não sei que instrumento será. Mas sei que esta semana é uma semana importante. Que nos fala da morte. Do sofrimento. E de como nos podemos salvar. Tudo coisas fora de moda. Que nos falam de um outro mundo. Ou talvez não. Para mim a Páscoa fala deste mundo onde vivemos. Onde erramos. Onde magoamos. Onde repetidas vezes nos falta o jeito para tantas coisas. Para amar. Para perdoar. Para construir. E esta semana fala-nos disso. De como podemos começar de novo. De peito cheio. De peito aberto. Deixando para trás aquilo que não precisamos. E há tanto para deixar para trás. Tanto mesmo. E se alguma fé pratico durantes estes dias é esta. Deixar para atrás aquilo que não me faz mais falta. E começar. Mesmo com falta de jeito. A amar melhor. A perdoar melhor. A construir melhor. Começo de novo.

20110308

Manhã de silêncio. Quando todos dormem. Quando o mundo pára. Manhã de pássaros tímidos e luz cinzenta. Como se a Primavera hesitasse. Como se a Primavera pensasse duas vezes antes de chegar. Manhã antes do começo. Manhã sagrada. Manhã humilde que baixa os olhos e sabe que este dia pode ser qualquer coisa.

20110301

Há uma praia da minha infância onde eu olho para ti e sorrio. Olho para ti e sorrio como se toda uma vida pudesse caber num pedaço de papel colorido. Há uma praia da minha infância onde o amor ainda é uma coisa fácil. Onde a vida se conta pelas conchas apanhadas na areia e os dias se medem pela altura do sol sobre o mar. Há um verão guardado dentro de uma dessas molduras que tenho na estante. Preciso voltar lá. Nem que seja por uns instantes. Preciso mesmo.

20110219

Às vezes acontece. Uma outra alma vem sentar-se à beira da nossa num qualquer degrau. Ficam ali à conversa como dois amigos que não se vêm há muito tempo. E não é que estejam sempre a falar. Há silêncios também. E nesse silêncio os corpos falam daquela maneira que se pode falar sem usar palavras. Não estou a falar de anjos nem de criaturas sobrenaturais. Estou a falar de pessoas de carne e osso em ruas muitas vezes sujas. Em sítios onde pensamos que não há lugar para as almas se encontrarem. Autocarros cheios, gabinetes cinzentos, prédios de subúrbio. E não há nada que a gente possa fazer. Horários, regras, circunstâncias. As almas não querem saber disso para nada. Quando se encontram é como se não houvesse ontem nem amanhã. E na verdade não há mesmo.

20110217

stand by or on stand by
1. one to be relied on especially on emergencies
2. a favourite or reliable choice or resource
3. one that is held in reserve ready for use
4. ready or available for immediate action or use

20110214

As pedras do rio são duras e suaves. Fortes e macias. Densas e transportáveis. Trazem consigo conversas de água que duram há muitos anos. Na verdade demasiados anos para os sabermos contar. Pegamos nelas e sentimos tudo isso na mão. Sentimos a água no toque suave da pedra. Sentimos todas as vezes que ali passou. Sentimos o tempo. E quase amor. São pedras que não queremos largar por nada deste mundo. Trazêmo-las na mão e nem sabemos bem porquê. E assim como o rio levamo-las para outra margem mais adiante. E no entretanto conversamos com elas mais um pouco. Aquele tipo de conversas que só temos com as pedras que apanhamos no rio. E com os estranhos.

20110207

Lembras-te de ficar acordada à noite na janela a olhar o céu e as estrelas?
E de pensares que era impossível adormecer quando havia tantas perguntas para responder.

20110202

Janeiro fora cresce uma hora.

20110127

onde está o meu abraço
em que pasta de arquivo o guardaste

20110126

Rascunho guardado automaticamente às 0:42

20110121

O Inverno para mim é isto: embrulhar-me em mantas e nas palavras dos outros.

20110113

parar (do latim paráre "preparar") verbo transitivo
1. deixar de andar ou de mover-se
2. deixar de funcionar
3. não ter seguimento
4. terminar; acabar
5. estacionar
6. chegar a determinado lugar
7. estacar
8. permanecer
9. residir
10. descansar
11. voltar à posse de
12. reduzir-se a ou converter-se em

20110104

As notícias dos primeiros dias do ano inundam-nos com tudo aquilo que aumentou de preço. Do pão ao leite, da gasolina ao bilhete do comboio, as percentagens e os euros seguem-se uns atrás dos outros nas aberturas de notícias e nas primeiras páginas. E porque não falar de todas aquelas coisas que não vão aumentar de preço? De todas aquelas coisas que não vamos pagar mais caro? De todas as coisas que não custam um único cêntimo? Porque não falar do humor, da compaixão, da amabilidade, da alegria, dos sorrisos, dos acenares de braço? Porque não falar do intangível? Do inefável? Do mistério? Do sonho? Do desejo? Porque não falar da alma e das coisas que alimentam a alma? É que a conversa da crise além de não servir para absolutamente nada já chateia pá! E depois com ou sem o FMI sempre teremos o José Mário Branco.