20110912
Sempre gostei de musicais. Mesmo os mais pirosos. Lembram-se daqueles em que as bailarinhas dançavam na água a formar figuras geométricas sem fim? Gosto daquela ideia de a qualquer momento da nossa vida no meio de um impasse podermos começar a cantar e a dançar até surgir uma solução. E nestes dias de futuro incerto não é difícil dar por mim no Metro com o iPod nos ouvidos a imaginar o segurança a tocar o solo de trompete que estou a ouvir e os passageiros a levantarem-se todos para dançar uma coreografia nunca antes ensaiada. Não foi a Pina Bausch que disse "Dance, dance, otherwise we are lost."
20110911
Gosto do meu bairro. De querer entrar com o carro no largo e não poder porque a marcha vem a descer a rua para ensaiar. Gosto das velhas à janela. Que falam comigo e eu com elas. Vizinha então. De uma manhã encontrar a praça coberta de pessoas sobre tapetes a rezar numa orientação estranha. E perceber imediatamente em que direcção se encontra Meca. E ver que o sagrado vem para a rua. Sem vergonha. E os miudos. O barulho dos miudos a brincar na rua. Ó mãe! E voltar a casa numa tarde de calor e encontrar a meio das escadas uma piscina insuflavel de plástico cheia de água. Um improviso de praia no meio da cidade. Gosto de não perceber a maior parte das línguas que oiço na rua quando não são português. O meu bairro faz-me imaginar. Faz-me crescer os olhos. Estica-me o coração. Diz-me que são possíveis muitas coisas. Fanfarras indianas. Cantares russos. Sombras chinesas. E umas escadinhas com vasos cheios de flores e hortelã. O meu bairro lembra-me uma coisa que eu tinha esquecido. Que as cidades são feitas de pessoas.
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