20090105
Já não se lembrava ao certo porque tinha partido. E tão pouco porque tinha regressado agora. Tinha-se metido à estrada mais pela viagem. Ou então porque não sabia fazer mais nada. Acreditava que tinha nascido num comboio em andamento mas nunca tinha conseguido confirmar com a mãe. Ela morrera antes de a ele lhe ocorrer fazer tal pergunta. A cidade estava mergulhada numa bruma de filme americano. Ele era o forasteiro que chegava à rua principal. Não havia xerife nem duelo. Apenas turistas perdidos armados com máquinas digitais. Uma loira voluptuosa senta-se ao lado da estátua do poeta no café e pousa para a fotografia. Janelas do quarto dele. De um dos milhões do mundo. Procurava um sítio onde passar a noite. Um sítio barato onde pudesse pousar os sacos e os olhos. Trazia demasiadas coisas dentro de si. Acontecia-lhe sempre que viajava grandes distâncias. Foi andando a pé para a zona mal frequentada da cidade. Onde as esquinas se dobram em ruas escuras e nunca mais se voltam a endireitar. Percebeu um vulto de mulher a fumar recortado em contra luz e viu que se tratava de uma residencial. Não lhe pareceu que fosse necessário falar. Tinha aprendido que as palavras nem sempre o ajudavam a dizer o que queria. Pousou os sacos e fixou o vulto. Este moveu-se em direcção à entrada para lhe dar a chave de um dos quartos mas hesitou no último momento e olhou de novo para a rua. Tu sabes… me gustan las luces amarillas de Lisboa.
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