20100110
Experimentar ficar no sítio onde estão os meus pés. Falar com eles a cada passo que dão. Experimentar ser os meus pés. E aquela mão. Ser aquela mão que segura a porta para a senhora entrar no café. Ser a nuca fria quando tiro o gorro de lã e o frio de Inverno chega sem pedir licença. Ser os cabelos soltos e deixar-me cair de uma outra maneira. Ser os olhos húmidos e a lágrima que espreita. Ser o próprio sal que seco depois da lágrima estica a pele do rosto. Experimentar ser quanto sou no limite estritamente orgânico da minha pele. Ficar por aqui. Não ir embora. Ficar nesta vizinhança de carne e osso e afectos. Entregar-me. Ser as costas cansadas de tanto lutar consigo mesmas. Ser o cólo quente do gato que passa e que fica.
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