20100919

E agora?
(dói ainda mais quando não se tem palavras quando a dor é um espaço sem coisas dentro e sem movimento apenas o espaço a lembrar-nos que não existimos que talvez nunca tenhamos mesmo existido que somos uma imagem vaga no sonho de alguém que dorme a sono solto e que desapareceremos assim que essa pessoa acordar assim que essa pessoa acordar e café e duche e trabalho e todas essas coisas dói ainda mais quando não sabemos quando a dor não tem forma nem cheiro nem cor quando não sabemos se é um bicho ou uma planta ou uma pedra dói ainda mais quando a voz cala e não diz não diz do tamanho do peito que mirrou para o espaço vazio ser mais pequenino não diz da lua ao contrário que ficou nos olhos fundos não diz da morte da morte sempre a espreitar a morte pequenina a morte de todos os dias a morte devagarinho dói ainda mais quando se tem todo o ar dentro de nós e o ar é tanto e podia tantas coisas dói ainda mais quando se sabe que a vida toda é aqui é isto és tu e ele e ele e ela e ela e ele e ela e eu e nós é este jogo de espelhos e nós distorcidos ora redondos ora esticados nós deformados no espelho do outro à procura de mais de nós dói ainda mais quando se sabe que todo o tempo que existe é este aqui debaixo do sol é este aqui debaixo do teu sorriso e tu te reviras dentro de mim num gesto de casaco e saco e ir embora dói ainda mais que eu saiba tudo isso mas não tenha palavras para tudo o que fica para este amor ao contrário para este amor de pernas para o ar para este amor que descomeça)

1 comentário:

Isabel disse...

Lindo! Linda a dor, que nos permite ver o espaço vazio, que nos doi, mas nos faz mais pessoa.
Triste aquele que perde a oportunidade de partilha de dor tão intensa e tão arrebatadora que nos silencia!
Um abraço do tamanho da lua!