20110911

Gosto do meu bairro. De querer entrar com o carro no largo e não poder porque a marcha vem a descer a rua para ensaiar. Gosto das velhas à janela. Que falam comigo e eu com elas. Vizinha então. De uma manhã encontrar a praça coberta de pessoas sobre tapetes a rezar numa orientação estranha. E perceber imediatamente em que direcção se encontra Meca. E ver que o sagrado vem para a rua. Sem vergonha. E os miudos. O barulho dos miudos a brincar na rua. Ó mãe! E voltar a casa numa tarde de calor e encontrar a meio das escadas uma piscina insuflavel de plástico cheia de água. Um improviso de praia no meio da cidade. Gosto de não perceber a maior parte das línguas que oiço na rua quando não são português. O meu bairro faz-me imaginar. Faz-me crescer os olhos. Estica-me o coração. Diz-me que são possíveis muitas coisas. Fanfarras indianas. Cantares russos. Sombras chinesas. E umas escadinhas com vasos cheios de flores e hortelã. O meu bairro lembra-me uma coisa que eu tinha esquecido. Que as cidades são feitas de pessoas.

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